Ana das Carrancas

Hoje este blog faz uma justa homenagem à dama do barro, Ana Leopoldina Santos - a Ana das Carrancas. 

 Ana das Carrancas. Reproduçao fotográfica autoria desconhecida

Ana das Carrancas nasceu no dia 18 de fevereiro de 1923 na localidade Santa Filomena no município pernambucano de Ouricuri. Filha de uma louçeira e de um agricultor, começou a trabalhar aos sete anos de idade, ajudando a mãe a fazer potes e panelas de barro para vender na feira. Foi a partir daí que ela foi “pegando gosto” pelo barro. Da cerâmica utilitária, passou a produzir também pecinhas figurativas; eram bois, cavalos e santos de lapinha. Ana se casou aos 22 anos de idade com um pedreiro, mas ficou viúva muito cedo; com ele teve duas filhas: Maria da Cruz e Ângela. Depois de pouco mais de um ano da morte do primeiro marido, casou-se com o piauiense José Vicente de Barros, com o qual permaneceu casada até sua morte. Ana das Carrancas faleceu no dia 01 de outubro de 2008 em Petrolina-PE.

Sua história é como a de tantos nordestinos, feita de luta, trabalho e fuga da seca. Quando Ana se casou com José Vicente a família morava em Picos-PI, mas devido às dificuldades financeiras, mudaram para Petrolina-PE em busca de uma vida melhor. Quando chegou a Petrolina, Ana era conhecida como “Ana do cego”, uma referencia a seu marido José Vicente que é deficiente visual. Ali, insistiu no trabalho com o barro, começou a fazer louça para vender na feira; “virou Ana louçeira”. Ganhava pouco com a venda das louças e por isso as dificuldades financeiras continuavam a perseguir sua família. Nos anos 60 Petrolina viveu uma série crise do barro, a qual obrigou a muitas louçeiras a optarem por outras alternativas de sobrevivência. Mesmo diante das dificuldades, Ana nunca aceitou que o marido fosse pedinte. Devota de São Francisco das Chagas e do Padre Cícero, ela pediu a eles que mostrassem uma forma de ganhar dinheiro para sustentar sua família. O pedido parece ter sido atendido.

 Ana das Carrancas e seus marido José Vicente, Petrolina-PE. FOTO: Denise Adams.

Ana das Carrancas moldando uma de suas peças, Petrolina-PE. FOTO: Denise Adams.

Ana das Carrancas moldando suas carrancas. Reproduçao fotográfica Cultura Brasil - Portal da Música Brasileira.

Em uma de suas idas ao Rio São Francisco para buscar barro, ela sentiu uma forte inspiração ao ver as carrancas de madeira dos barcos que aportavam às margens do rio. Foi ali, debaixo de um pé de mussambê, que a história de Ana começou a mudar. Sentada à beira do rio, fez um barquinho de barro com uma carranca à frente, no qual colocou o nome de gangula. Em casa  todos gostaram e aprovaram a idéia. A partir daí, além dos potes e das panelas que já fazia, Ana passou a produzir carrancas de barro em grande quantidade, as quais eram comercializadas na feira.

 Ana das Carrancas trabalhando. Reproduçao fotográfica blog Centro de Cultura Ana das Carrancas.

A obra de Ana nem sempre teve o reconhecimento que tem hoje. Suas primeiras carrancas comercializadas na feira foram motivo de piada; os demais comerciantes diziam que era coisa de doido. Ana só ganhou fama ao ser “descoberta”, por volta de 1970, pelos técnicos em turismo Olímpio Bonald Neto e Francisco Bandeira de Mello, assessores do então presidente da EMPETUR (Empresa Pernambucana de Turismo), Eduardo Vasconcelos, que viajavam pelo sertão, em trabalho de pesquisa sobre o artesanato pernambucano. Com a fama, veio a oportunidade de participar de varias feiras em Pernambuco e em outros Estados brasileiros; as peças de Ana ganharam o mundo. Foi aí que Ana Leopoldina deixou de ser a “Ana louçeira” e passou a ser conhecida como a “Ana das carrancas”.

 Ana das Carrancas, Carrancas, cerâmica. Coleçao pessoal.

As peças de Ana das Carrancas são peças de aspecto rústico, criadas no estilo próprio da artesã, com formas simples, primitivas e com um detalhe importante: possuem os olhos vazados, em homenagem ao marido, José Vicente, que sempre participou ativamente de seus trabalhos, fazendo os bolos de barro para a confecção das carrancas.

 Ana das Carrancas, Carrancas (detalhe do olho), cerâmica. Coleçao pessoal.

Com suas peças em galerias, museus e coleções particulares, Ana conseguiu com sua força atingir às exigências da arte rústica, com seu currículo repleto de congratulações, homenagens, troféus e medalhas, como: o Troféu do Conselho Municipal de Cultura do Recife, a Ordem do Mérito Cultural (2005), e o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco (2005).

 Diploma Ordem do Mérito Cultural (2005). Reproduçao fotográfica blog Centro de Cultura Ana das Carrancas.

Parte de sua obra está abrigada no Centro de Artes Ana das Carrancas, inaugurado no ano 2000 em Petrolina. O centro também conta com um memorial composto por fotos, recortes de jornal, medalhas e troféus conquistados pela artesã. Suas filhas Maria da Cruz e Ângela Lima são as responsáveis pela administração do Centro. Elas também são ceramistas e, com a morte da mãe, dão continuidade à produção das carrancas no mesmo estilo das produzidas por Ana.

Fonte

- MACHADO, Regina Coeli Vieira. Ana das Carrancas. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: 01/12/2010.
- Blog “Centro de Cultura Ana das Carrancas”. Disponível em: < http://anadascarrancas.wordpress.com>. Acesso em: 05/12/2010


Contato com o Centro de Artes Ana das Carrancas:
BR 407, 500 - Cohab Massangano
Petrolina-PE
Tel: (87) 3031 4399

 Ana das Carrancas, Carrancas, cerâmica. Acervo do Centro de Artes Ana das Carrancas, Petrolina-PE. Reproduçao fotográfica blog Meu Velho Chico.

 Ana das Carrancas, Carrancas, cerâmica. Acervo do Centro de Artes Ana das Carrancas, Petrolina-PE. Reproduçao fotográfica blog Meu Velho Chico.

 Ana das Carrancas, Carrancas, cerâmica. Acervo do Centro de Artes Ana das Carrancas, Petrolina-PE. FOTO: Vânia Braynner.

Ana das Carrancas, carranca, cerâmica. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

D. Ana das Carrancas em sua casa em Petrolina, PE.

Filhas de D. Ana das Carrancas que dão continuidade ao trabalho dela.

Video - entrevista com a familia de Ana das Carrancas 

13 comentários:

  1. Parabéns pelo blog.
    Adorei esse post.

    Abraços.

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  2. Adorei esse post, usei seu texto como base para um trabalho, gostaria de saber se posso usar seu post para colocar no wikipedia com uma versão em inglês e português.
    Se não for incomodo, poderia responder aqui? >> http://mydiaryalmostsecret.tumblr.com/ask

    Grata desde já.

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  3. Adorei com ele fiz meu trabalho da escola!
    brigada!
    BJS!

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  4. Adorei com ele fiz meu trabalho da escola!
    brigada!

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  5. Boa tarde, gostaria de saber o contato para solicitar o direito de imagens de Ana das Carrancas para fazer parte do projeto A Cor da Cultura, no programa Herois de Todo Mundo.
    Aguardo resposta - patcfreitas@gmail.com

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  6. Olá, estou finalizando uma dissertação de mestrado e gostaria de pedir autorização para uso de imagem deste blog. A dissertação é sobre Mestre Galdino, porém há na pesquisa alguns comparativos de obras, e peço autorização para utilizar a imagem Ana das Carrancas, Carrancas, cerâmica. Coleçao pessoal. Se puder, me envie também a autoria da foto e a quem pertence a coleção. Desde já agradeço, Rosangela Ferreira rosangela0708@yahoo.com.br, rosangelaeluciano@gmail.com

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  7. FOI ME MUITO UTIL ESSA MATERIA OBG??????TANKS

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  8. Mt Bom !! Mi Ajudou Mt Na Prova Simulado é Teste ''' Mt Obg

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  9. Trabalho fantástico de vcs!!
    Parabéns por nos brindar com tanta belezura...é a Cultura Popular Brasileira pra todo mundo apreciar com satisfação!
    FAVORITEI :D
    Abrzo Fraterno

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  10. Boa noite!
    Adorei conhecer D. Ana das Carrancas. Vou trabalhá-la com minhas crianças; realizando pesquisa de vida e obra com algumas releituras e exposições na escola. Obrigada pelo espaço respeitoso e confiável que veio contribuir para melhorar e aumentar meus conhecimentos. Parabéns !
    Atenciosamente Maria de Lourdes

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