Vieira da Ilha do Ferro

O mestre Vieira, é um dos artistas escultores da Ilha do Ferro mais destacados da atualidade. Como tantos outros, Vieira é um seguidor de Seu Fernando da Ilha do Ferro, mas ao longo de sua carreira conseguiu imprimir nas suas obras uma marca própria, que o faz ser reconhecido facilmente; Vieira é um artista único. Começou a trabalhar com a madeira desde muito cedo. Seu pai era um dos mais conhecidos construtores de barcos da região, além de escultor. Do pai Vieira herdou a inventividade e aprendeu com ele a ser muito meticuloso. O trabalho de Vieira não somente se destaca pela criatividade, mas também pelo esmero com o qual é realizado.

Vieira ao lado de uma de sua invenções. Reprodução fotográfica: Projeto Sertões.

Vieira retrata na madeira, sempre pintada com tinta a óleo e cores quentes, barcos, animais, seres imaginários, homens e mulheres. A inspiração para o trabalho vem da própria região onde vive. A Ilha do Ferro está às margens do Rio São Francisco e é povoada, como tantas outras comunidades ribeirinhas, de costumes e lendas que fazem parte da obra de muitos artistas que ali vivem. Com Vieira não é diferente.

Vieira, Casal, madeira policromada. FOTO: autoria desconhecida.

Vieira, Homem, madeira policromada. Acervo da Galeria Karandash, Maceió, AL.

Vieira, Homem pássaro, madeira policromada. FOTO: Manu Oristano.

Além desse rico imaginário, Vieira ainda produz algumas peças utilitárias, sobretudo móveis. São cadeiras de balanço, namoradeiras que trazem em suas pinturas as cenas do sertão ou temas como o amor e a liberdade.

O artista tem obras em diversas galerias de arte espalhadas pelo país, como também em coleções particulares. Em 2012 suas obras foram expostas no Museu Théo Brandão em Maceió-AL dentro da exposição “Madeiras e reinvenções dos mestres Valmir e Vieira”.

Vieira, Homem com e sem chapéu, madeira policromada. FOTO: autoria desconhecida.

Vieira, Pássaro, madeira policromada. FOTO: autoria desconhecida.

Vieira, Homem pássaro (detalhe), madeira policromada. FOTO: autoria desconhecida.

Vieira, Homem com chapéu, madeira policromada. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Vieira junto às suas invenções. FOTO: Victor Sarmento.

Vieira, Homem com pássaro na cabeça, madeira policromada. FOTO: autoria desconhecida.

Vieira, Frade, madeira policromada. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Vieira, Mulher de roca, madeira policromada. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Cadeira de madeira produzida por Vieira. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Vieira, Jogador, madeira policromada. Acervo Galeria Karandash, Maceió, AL.

Fernando da Ilha do Ferro

O povoado Ilha do Ferro localizado no município de Pão de Açúcar em Alagoas, às margens do Rio São Francisco, transformou-se nos últimos anos em um dos mais importantes e expressivos polos de produção de arte popular do Brasil, a exemplo do Alto do Moura em Caruaru-PE ou do povoado de Bichinho em Prados-MG. O grande responsável por transformar a Ilha do Ferro no centro criativo que é hoje foi Fernando Rodrigues dos Santos, o Seu Fernando da Ilha do Ferro, que transformou seus famosos bancos de madeira em esculturas que hoje “povoam” importantes coleções de arte pelo país. Seu Fernando representa para a Ilha do Ferro o que o mestre Vitalino representa para o Alto do Moura em Caruaru.

Seu Fernando. FOTO: autoria desconhecida

Seu Fernando nasceu na Ilha do Ferro no dia 1 de dezembro de 1928 e foi lá onde viveu até sua morte no dia 11 de janeiro de 2009. Quando jovem trabalhou na roça, nas lavouras de arroz, milho e feijão. Filho de um sapateiro, Seu Fernando iniciou o seu ofício ainda menino, produzindo pequenos objetos de madeira na oficina do pai. Aos 40 anos construiu sua primeira grande peça: uma espreguiçadeira. Aos 70 anos começa a participar de mostras de decoração na região Sul e Sudeste do Brasil, exibindo mesas, cadeiras, bancos, que aproveitavam as formas originais dos troncos e raízes das arvores; foi a partir dessa época que Seu Fernando ganhou fama nacional. Materializados em mulungu, imburana e outras espécies de madeira da região, os móveis de Seu Fernando são considerados, por sua qualidade estética, verdadeiras esculturas. Com os veios, as rachaduras e os nós da madeira sempre aparentes, Seu Fernando ainda escrevia em algumas de suas obras, poemas criados por ele.

Cadeira feita por Seu Fernando. FOTO: Luis Gomes Raízes

As obras de Seu Fernando foram expostas ao longo de sua vida em vários espaços de arte e/ou decoração no Brasil e em outros países. Peças de Seu Fernando fizeram parte em 1987 de uma grande exposição sobre a arte popular brasileira no Grand Palais em Paris, a mostra Brésil, Arts Populaires. Hoje essas obras fazem parte do acervo do Centro Cultural de São Francisco, em João Pessoa-PB. Seu Fernando expôs ainda no Museu de Arte Popular da Paraíba e na Casa Cor de São Paulo, em 2001, com prêmio para o ambiente do designer Arthur Casas. Participou da mostra “O Sentar Brasileiro” com 100 cadeiras e bancos, que inaugurou o Museu Oscar Niemeyer em Curitiba-PR. Em 2007, Seu Fernando recebeu o título de Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas outorgado pelo Governo do Estado, conforme a Resolução nº 01/2007. Em 2017, o Governo do Estado de Alagoas e a Universidade Federal de Alagoas inauguraram o Espaço de Memória Artesão Fernando Rodrigues dos Santos, na Ilha do Ferro, que congrega a produção de vários artistas que hoje dão sequencia ao legado deixado por Seu Fernando. As obras de Seu Fernando hoje integram o acervo de vários museus, galerias e coleções particulares por todo o país.


Minha arte tem uma inteligência que só os artistas da natureza podem compreender (Fernando Rodrigues dos Santos, 1928-2009)

Casa e peças de Seu Fernando. FOTO: autoria desconhecida.

Banco feito por Seu Fernando. FOTO: autoria desconhecida.

Seu Fernando em meio às suas criações. FOTO: Rômulo Fialdini.

Lira Marques

Maria Lira Marques Borges, mais conhecida como Lira Marques, é uma das responsáveis pela projeção da arte do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais para o mundo. Ela nasceu em 1945 na cidade de Araçuaí, região do médio Jequitinhonha, localizada a 678 km da capital Belo Horizonte. Lira começou a trabalhar muito cedo, seu pai era sapateiro e sua mãe lavadeira. Da mãe herdou a profissão; lavou muita roupa das famílias de Araçuaí juntamente com sua mãe. Da mãe também herdou a alma de artista. “... Minha mãe era uma artista. Ensinava a gente a declamar com gestos: ‘ó minha filha, a gente tem que fazer isso grande.’ Ela tinha muitos dons. Tinha uma voz linda, sabia alguns tons no violão, fazia muitos trabalhos manuais, ensinava a gente a se defender se uma pessoa pegasse a gente. Não conseguiu estudar, mas era uma mulher muito inteligente. Até hoje, eu fico encabulada: como uma pessoa criada sem mãe, lavadeira de roupa, tinha tantos dons artísticos?”, conta Lira. Foi observando sua mãe a mexer com o barro que Lira começou a ser a artista que é hoje. Dona Odília, como era chamada, fazia cerâmica ocasionalmente na época do natal, sobretudo presépios; fazia sucesso entre os moradores. Nos intervalos entre uma trouxa de roupa e outra, Lira também trabalhava com o barro. Com o tempo sua obra foi ganhando espaço e notoriedade entre os demais artistas da região, ao ponto de Lira conseguir fazer dele o seu oficio e dele tirar o seu sustento. “... Eu amo aquilo que eu faço. Isso é o que me dá vontade de viver...”

Lira Marques. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.

O início, como na maioria das vezes, foi difícil. Foi uma ceramista da região, conhecida de Lira, Dona Joana Poteira, que a orientou nas técnicas da cerâmica. Familiares lhe emprestavam livros de história e filosofia, e neles Lira se inspirava para fazer bustos de mulheres e de filósofos, sem intenção de vender. Porém, sua origem africana e indígena falou mais alto. Ainda com o auxílio de livros, Lira passou a pesquisar referencias africanas e indígenas para compor o seu trabalho. Não demorou muito para esses bustos desparecerem e no lugar surgirem trabalhos relacionados com a vida e o sofrimento do povo do Vale do Jequitinhonha. “... Nosso povo é sofrido. Foi vendo esse sofrimento que fiz minha primeira peça (Pessoas brotando da terra que dá sustento ao Cruzeiro). Porque foi isso que vi, o povo pedindo, carregando água e pedras lá para o alto. Uma penitência...”

Lira Marque em sua casa, trabalhando. FOTO: Lori Figueiró

A grande virada do trabalho de Lira se deu na década de 1970 com a chegada do Projeto Rondon (Campus Avançado da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e da Codevale (Comissão do Desenvolvimento Vale do Jequitinhonha). Os estudantes de ciências sociais e agronomia, vindos através do Projeto Rondon, gostaram do trabalho de Lira e levaram para feiras de artesanato em Belo Horizonte. A partir daí o trabalho de Lira foi sendo conhecido além das fronteiras do Vale do Jequitinhonha. Foi também na década de 1970 que lira conhece Frei Chico (Francisco van der Poel, frei franciscano, pesquisador da cultura e religiosidade popular brasileira). Com ele ajudou a fundar o Coral Trovadores do Vale e se tornou também pesquisadora. O esforço dos dois resultou em um amplo trabalho de pesquisa sobre a cultura do Vale. “... Nós gravamos 250 fitas com cantigas de roda, cantigas de ninar, cantos de pedir esmola, cantos de beira-mar, cantos sobre a educação da criança. E não ficou só nesses cantos, mas também sobre a agricultura, como plantar, quais os tipos de milho que existem, como é que planta a mandioca, quantos tipos de mandioca têm, como é que faz uma casa, tudo sobre os remédios, as rezas, tudo, tudo o que você imaginar”, diz Lira.

Lira Marques e Frei Chico. FOTO: autoria desconhecida

Com o passar do tempo, Lira começou seu trabalho com máscaras de cerâmica. Hoje em dia, além de se dedicar a essas máscaras, Lira faz "pinturas de terra", como ela mesmo chama, que são obras de pintura de barro sobre papel, tecido ou pedras, utilizando as cores da terra para produzir suas peças. Seus trabalhos já foram mostrados em muitas exposições organizadas por galerias e instituições diversas, tanto no Brasil como no exterior.

Lira Marques, máscara, cerâmica. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquesmáscara, cerâmica. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquesmáscara, cerâmica. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquesmáscaras, cerâmica. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marques fazendo uma de suas "pinturas de terra". FOTO; Lori Figueiró

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marquestítulo desconhecido, pintura com barro. FOTO: autoria desconhecida.

Lira Marques moldando uma de suas peças. FOTO: Lori Figueiró